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Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

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Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Flavius em Sex Ago 28, 2009 6:56 pm

O assunto que o termo religião engloba é bastante complexo. Usa-se religião para se referir indistintamente tanto para a espiritualidade autêntica ou não. A espiritualidade que é visada tanto por Maomé como pelo apóstolo Paulo, conforme depreendo das escrituras, pertence à espiritualidade autêntica. Esse tipo de espiritualidade choca-se com o teísmo, que é existência de deus apartado do ser humano.

Equivale dizer, portanto, que as religiões positivas como o cristianismo e o islamismo, em sua maior parte, não atende os ensinamentos de Maomé ou de Paulo. Tanto o judaísmo, como o cristianismo e o islamismo têm a característica comum de serem monoteístas, isto é, forma de teísmo voltado para existência de um único deus. Essa leitura é correta, mas cabe ressalva, pois há manifestação religiosa classificada no ramo do judaísmo, do cristianismo ou do islamismo que não é teísta.

A palavra crença, no sentido de crer, acreditar, se aplica bem ao teísmo, que pode se revestir em monoteísmo, henoteísmo ou politeísmo. Diferente desses conceitos, cito uma passagem do apóstolo Paulo, em Atos dos Apóstolos, cap.17, vv. 24 em diante, dirigindo-se aos atenienses, no Areópago, que demonstra o conceito de Deus dele (versão bíblica de João Ferreira de Almeira, revista e corrigida):
24 O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.
25 Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas;

E para deixar claro onde Deus se encontra, da parte final do versículo 27 em diante, desse mesmo capítulo, lemos:
27 ... ainda que não está longe de cada um de nós;
28 porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.
Esse conceito paulino de Deus confunde-se, à primeira vista, com o deísmo, porém há tremenda diferença com o deísmo cultivado pelo filósofo Voltaire e outros. Porque o conceito paulino de Deus não é meramente um apontamento do intelecto, mas um conhecimento mediante transformações profundas de consciência. Uma delas, mudança capital de consciência, extraordinária, conhecida universalmente, é a da transcendência da dualidade, que é simplificada e inadequadamente traduzida como forma de visão do mundo. A dualidade é referida tanto no Bhagavad-gita, nas sutras budistas e na Bíblia, sendo que a Bíblia a ela se refere de modo simbólico, tanto no chamado Antigo e Novo testamentos, que são denominações e distinções profundamente infelizes.

No caso da consciência que passa do estágio da dualidade para a unidade ou UM, temos no Novo Testamento trechos como:
Lucas 17:34 Digo-vos que, naquela noite, estarão dois numa cama; um será tomado, e outro será deixado.
Lucas 17:36 Dois estarão no campo; um será tomado, e outro será deixado.
A Bíblia e o Alcorão são compêndios cuja mensagem é grafada essencialmente em símbolos. Isso traz percalço tremendo para seu verdadeiro entendimento, pois termos como homem e mulher não se referem, quase sempre, ao ser humano macho ou fêmea, mas para seus aspectos psíquicos. É por essa razão que o apóstolo Paulo, ao interpretar passagens do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, dizia que as escrituras se destinavam àqueles que foram atingidos "pelo fim dos tempos", "fim dos séculos" ou "fim do mundo", como registrado em 1Coríntios, 10:11. A Bíblia, portanto, não é compêndio que qualquer um pode se debruçar, e sua mensagem também não se dirige ao entendimento de qualquer pessoa.

No Alcorão, registra-se na sura 3, versículo 19 "Para Deus, a religião é o Islã, a submissão a Sua vontade...". Esse trecho não autoriza o entendimento de que, no plano histórico, deva haver uma religião positiva com a denominação "islã" ou seu variante para se considerar religião no conceito alcorânico. O conceito de Islã diz respeito à essência, não à forma. Por essa razão não há contradição com outras suras, como exemplo a sura 2, v. 62:
Os que crêem e os que abraçaram o judaísmo e os cristãos e os sabeus, todos os que crêem em Deus e no último dia e praticam o bem obterão sua recompensa de Deus e nada terão a recear e não se entristecerão.
A expressão "último dia" equivale ao "fim do mundo", à transcendência da dualidade. Está patente a abertura do Alcorão para reconhecimento tanto do judaísmo, do cristianismo, e pasme-se, até dos sabeus como movimento religioso legitimado. Mas esse reconhecimento, diga-se, restringe-se ao propósito fundante desses movimentos, porque noutra parte do Alcorão recebem críticas - judaísmo e cristianismo, mas isso em razão de que, no plano histórico, se desviavam do seu propósito original, não estavam imbuídos do Islã, isto é, seu propósito não se submetia à vontade de Deus, que é a paz, o amor irrestrito e incondicionado a todos os seres humanos, bem como não cultivavam o caminho que conduz ao regozijo próprio, libertando-se do estado da angústia existencial. O paraíso é qualidade do estado de vivência, não promessa para um futuro pós-morte, e isso exige de cada membro uma postura e submissão correta.

Naturalmente, a religião positiva e histórica que recebe o nome de islamismo também padece dos vícios que Maomé já denunciava naquela época. A Bíblia, igualmente, e anteriormente, já criticava a religiosidade cega, e o cristianismo positivo, em sua grande parte, que alega dispor de autoridade bíblica, assume todos os vícios criticados tanto na Bíblia como no Alcorão. Veja-se o fundamentalismo, fenômeno universal, que atinge fortemente o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, é condenado explicitamente no evangelho de Mateus, cap. 23:15, ainda que os criticados assumam revestimento histórico - fariseus, porém emblemático para todos os tipos de sacerdotismo cego, hoje ainda muito vigente:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.
Alguns termos, na sua essência original, esotérica, não podem ser de domínio de qualquer religião positiva nem de reivindicação, pois é como o amor; podemos vivenciá-lo, mas não deter sua posse: Islã, Cristo, Buda e outros. Quando se registra no evangelho de João, 14:6
Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.
tem-se expressão verdadeira esotericamente, universal, mas deve-se tomar cuidado, porque Jesus aí é personificação de Sabedoria divina, cujo termo equivalente no budismo é prajna, de origem sânscrita.

Veja que o fenômeno da religiosidade é bastante complexo. Religião não é coisa como cigarro ou qualquer outra droga. Entretanto, compreendo perfeitamente os críticos da religião. A face da religiosidade positiva, em sua maior parte, não corresponde à Religião ideal, que é o fundamento comum que inspiraram todas as grandes tradições religiosas. Felizmente há presença cada vez maior no Ocidente da espiritualidade autêntica, que demanda estudo acadêmico sofisticado.

Bom, falei bastante. Não pretendia que fosse tópico, porém uma postagem-resposta para o tópico de Douglas M. Pequei pela extensão. Por isso não estruturei o assunto adequadamente, mas assim vai. Gostaria de opinião dos demais colegas.

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Filipe de Albuquerque em Sex Ago 28, 2009 7:36 pm

Antes de mais congratulo-o porque acho a sua intervenção genuinamente pertinente, culta e diversificada, um verdadeiro exemplo de como se faz opinião ! e é de exemplos destes que estamos à espera aqui no Fórum...

Efectivamente a Religião é um assunto complexo, que merece da nossa parte, uma reflexão profunda e multi direccionada para que possamos retirar do seu percurso histórico alguma substancia capaz de nos esclarecer.

A Unidade Deísta, a transcendência da Dualidade como disse, no fundo o Monismo, é no meu parco entender, a proposta de Deus que ainda me faz mais sentido...nela se exprimem a Universalidade da LEI, a NECESSIDADE da Ordem e a coerência do Mundo...assim como nela se transcendem dicotomias aparentes e Metafisicas absurdas...

Deus é unidade com tudo !...e a Religião a intuição natural disso mesmo...

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Flavius em Dom Ago 30, 2009 3:51 pm

Grato pelas palavras generosas, Filipe. Minha formação restringe-se ao bacharelado em Administração. Em razão disso, somente agora e por empenho pessoal procuro me familiarizar com a seara filosófica. Por isso acho e achei muito interessante a participação dos demais colegas, mesmo que discordasse um pouco de algumas colocações, ou o que ocorria quase sempre, eu sem altura suficiente para me posicionar. Estou mais na oitiva, aprendendo e me fascinando com as exposições dos colegas que, coerentes ou não, têm familiaridade em amplo leque de assuntos, ou bom domínio em campos para mim desconhecidos, o que é praticamente todos rabbit , sem falsa modéstia. E isso funciona como estímulo para que eu me dedique a me expandir; então sou grato a todos.

Agora mesmo, lendo "Deus na filosofia do século XX", Edições Loyola, no capítulo pertinente a Karl Jaspers, comentário de Giorgio Penzo, deparo-me com o seguinte parágrafo, que me obriga a conhecer a filosofia de Jaspers:
Quando Jaspers define o homem como contínua superação e, portanto, como abertura à transcendência, ele se mostra coerente quando o define também como o ser que está em relação com Deus. Desse modo, Deus se revela ao homem como contínua conquista, que ocorre quando ele se decide justamente pelo plano da liberdade existencial. Em outras palavras, quanto mais autenticamente livre é o homem, mais ele tem consciência de Deus. Foi dito que o homem está na autêntica liberdade quando tem consciência de não ser livre por si mesmo, mas de ser dado à sua própria liberdade, significa ter consciência de não ser o criador da sua própria liberdade. E, por sua vez, o ser-dado-a, ou seja, à sua própria liberdade, significa ter consciência de não ser o criador da sua própria liberdade. Ora, exatamente nessa consciência de finitude se abre a consciência do divino. Se pensarmos, ainda, que essa consciência de finitude confunde-se com a autenticidade mesma da existência, entenderemos por que Jaspers diz que, para o indivíduo, Deus é na medida em que ele existe de modo autêntico. Em outras palavras, Deus só fala no horizonte da existência autêntica.
Concordo com o parágrafo acima. Jaspers, me aguarde!

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Filipe de Albuquerque em Dom Ago 30, 2009 10:25 pm

Jaspers como outros, coloca aqui a questão da Liberdade de uma forma inteligente, explicando-nos, que o Homem não está na origem desta, mas que no entanto se serve dela...e em consequência, contorna as dificuldades que a questão do fundamento da mesma, classicamente tem levantado.

Ora no meu ver, também ele o ver de um leigo, na minha acepção do problema, eu transponho-me dialecticamente para lá do termo Liberdade, isto porque o acho conceptualmente inconveniente, preferindo no lugar, esta noção de encontro da consciência com a NECESSIDADE do Mundo, de certa forma com o Destino, ou o vir a ser, onde se exprime na materialização da LEI a prova formada desta mesma Necessidade... ou seja, a ideia apriorística, de que aquilo que inevitavelmente se Realiza na Historia é sempre consequência da coerência Universal.

Este encontro, da Consciência do Homem com o Mundo, é pois a esta luz, a aceitação NATURAL da LEI, ou seja, a aceitação do Divino e da nossa parte no seu projecto...

Isto, é em si mesmo, o caminho do Conhecimento...o caminho da Sabedoria, e simultaneamente o caminho para DEUS.

( DEUS=UNIVERSO )

Grato pela atenção ! Com os melhores cumprimentos>FILIPE DE ALBUQUERQUE

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Flavius em Seg Ago 31, 2009 12:29 am

Bem, Filipe, eu não tenho familiaridade com a filosofia de Jaspers, por isso mesmo vou conferir. Porém, à primeira leitura, da exposição de Giorgio Penzo, vejo similitude com algumas passagens bíblicas, atinente à questão ontogenética, mas de vivência de parcos indivíduos. E identifico no comentário de Penzo, salvo melhor juízo, a situação também definida no desdobramento do campo ontogenético, peculiar ao indivíduo.

Em razão disso, onde se diz "na consciência de finitude se abre a consciência do divino" percebo por finitude o esgotamento do ego, ego na acepção budista, também denominado "carne" na composição bíblica. Nessa abertura para o divino, também denominado "O Caminho" ou "Caminho do Senhor", assistimos pela ordem o batismo de João, que é batismo da água, seguida pelo batismo maior, o do Espírito Santo, que é realizado por Cristo.

Por "existência autêntica" vejo a assunção de Cristo na consciência do indivídulo, porque:
João 14:6 Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.
Daí porque acho arrazoada a frase de Penzo "Deus só fala no horizonte da existência autêntica."

Pela frase "ter consciência de não ser o criador da sua própria liberdade." é reconhecer o limite do ego, daí porque na Bíblia:
Lucas 9:24 Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim [Cristo], perder a sua vida a salvará.


Ainda identificando-se com a frase acima e esta "Em outras palavras, quanto mais autenticamente livre é o homem, mais ele tem consciência de Deus.", lembro da seguinte passagem:
Mateus 11:28-30 28 Vinde a mim [a Cristo], todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. 30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Bem, eu tenho que conhecer Jaspers para me assegurar, mas Penzo me fisga pelo comentário. Cito passagens da Bíblia, que nada tem a ver com a religiosidade positiva, que em sua grande parte é detestável. Certamente o budismo e o o hinduísmo fornecem grandes subsídios para reconhecermos também paralelismos incríveis.

Filipe, suas colocações são bem interessantes. É bom ouvi-las. Flávio.

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  dire Z'one em Seg Ago 31, 2009 3:10 am

Boas, a todos. A meu ver Jaspers cria um texto um pouco opaco que está livre de interpretação. Ainda assim se ele insistir em assinalar Deus como um entidade epistomologica, e epistomologicamente válida, temos o problema da validade de tal coisa. A menos que ele tenha "poderes" para além do normal para captar informação oculta, não vejo como ele possa dar a conhecer Deus tão directamente. Eu prefiro pensar, antes, numa espécie de metáfora que consegue passar bem disfarçada por um texto religioso. ( De sublinhar que só li oque o caro Flavius referiu sobre a personagem) Mas a verdade é que o único problema real aqui é que ele fala, sendo médico, como um filosofo e dando valor autentico à sua obra. De certo modo é perigoso um médico dizer que Deus existe porque tem alguma autoridade na matéria de critíca, enfim.

Abraços, Dire Idea

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Flavius em Qua Set 02, 2009 5:18 pm

Filipe de Albuquerque escreveu:
A Unidade Deísta, a transcendência da Dualidade como disse, no fundo o Monismo, é no meu parco entender, a proposta de Deus que ainda me faz mais sentido...nela se exprimem a Universalidade da LEI, a NECESSIDADE da Ordem e a coerência do Mundo...assim como nela se transcendem dicotomias aparentes e Metafisicas absurdas...

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Filipe, você tendo formação acadêmica na seara filosófica e esposando simpatia pela tese monista é algo auspicioso, até fabuloso, eu diria. No meu parco conhecimento, vejo muitos filósofos e cientistas de renomada estatura não alcançarem a sua intuição. Acho lamentável que o assunto Deus esteja quase sempre relegado na querela entre teísmo e ateísmo.

Afirmam alguns ateístas haver estudos a comprovar que o quociente de inteligência (QI) de seu grupo é maior do que a média dos monoteístas, religiosos. Eu creio que isso possa ter bastante fundamento, pois os religiosos visados pelos ateístas têm menor visão perspectiva e são altamente etnocêntricos, onde os direitos humanos são de menor apelo. Só que os ateístas, tendo consciência de gozar maior liberdade perspectiva e direção em relação aos religiosos teístas, religiosos de grupo majoritário que não conhecem a seara da espiritualidade autêntica, pensam que tudo que diga respeito a Religião se encaixa no horizonte teístico. O conceito de Deus tanto dos teístas e dos ateístas é concebido como da "coisalidade", algo além, apartado de nós. Por isso sempre se centram no termo crença. Os ateístas tradicionais também cingem-se num visão determinística, e muitos têm também sua "religião" fundamentalista, normalmente o cientificismo.

A Bíblia, que é obra considerada de fundamento da religiosidade ocidental, infelizmente não adentra tecnicamente na metodologia da seara da espíritualidade autêntica, além de que é vertida em linguagem figurada que não conduz a bom termo. A forma fomenta a perpetuação de uma leitura fundamentalista da escritura, pouco permitindo a leitura de sua mensagem autêntica, mesmo àqueles que estão à altura de compreendê-la.

Concordo também com alguns comentários de que o cristianismo positivo, guindado à religião de Estado romano, de caráter dogmático, abalroou a possibilidade de desenvolvimento da espiritualidade autêntica no Ocidente. Muitos tiveram que recorrer às tradições da espiritualidade autêntica do budismo ou do hinduísmo para satisfazer a sua necessidade de desenvolvimento espiritual no século passado.

Vou citar um trecho de Isaías, na versão da Bíblia de Jerusalém, nova edição revista e atualizada, Editora Paulus, cuja redação não é unânime, mas concorda com o conceito de Deus do apóstolo Paulo.
Isaías 45:5-7 Eu sou Iahweh, e não há nenhum outro, fora de mim não há Deus. Embora não me conheças, eu te cinjo, a fim de que saiba desde o nascente do sol até o poente que, fora de mim, não há ninguém: eu sou Iahweh e não há nenhum outro! Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isso.

Noutras partes da Bíblia o termo Deus ou Iahweh não assume essa feição conceitual, porque os redatores não visavam ao conceito do que é Deus ou de seu convencimento. Funciona como alegoria da sophia perennis, mas o fundamentalismo e os intelectuais desavisados recepcionam como teísmo, principalmente porque esse Deus dialoga e se relaciona com entes de roupagem humana, que, na verdade, são símbolos de aspectos psíquicos. Eu mesmo não tenho domínio, pois muitas coisas versam sobre estágios bem profundos de consciência.

Pena que uma obra que verse sobre algo tão importante na humanidade sirva muito mais para fundamentar confusão e sofrimento.

Filipe, é muito bom corresponder de vez em quando com a ótica que tu ostentas. Cordiais abraços. Flávio.

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Filipe de Albuquerque em Qui Set 03, 2009 4:38 pm

Obrigado mais uma vez Flavius pelas suas gentis palavras. De qualquer forma uma pequena correcção, a minha formação académica não é em Filosofia mas em Ciências da Educação e por motivos de diversa ordem não está sequer concluída...none the less a minha paixão informal é efectivamente a Filosofia e outras Ciências fundamentais relacionadas, Ontologia, Epistemologia, Fundamento do Direito, etc, acrescenta-se ainda um interesse por Física Quântica, Astrofísica, Biologia e Geologia Evolutiva. Tenho colaborado com alguns amigos de longa data em trabalhos de licenciatura, teses de Mestrado e outros por mera carolice pessoal, sempre procurando aprofundar a clareza das ideias e a construção assertiva de uma solida estruturação lógica dos temas propostos, que é como sabe onde normalmente se falha mais, infelizmente, seja tanto, por uma questão de tempo, ou pela efectiva falta de empenho por parte de quem se propõe...pedem-me para dar uma vistas de olhos e eu lá vou dando e fazendo alguns ajustes na medida do que sei...é assim !

Os melhores cumprimentos e até breve !
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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Filipe de Albuquerque em Dom Set 06, 2009 5:43 am

Para todos os efeitos e dada a sua incontornável importância, gostava de ouvir a opinião dos diversos membros do Fórum sobre esta matéria...

A terem que conceber uma ideia de Deus qual seria a vossa ?

Até breve ! Wink

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  dire Z'one em Dom Set 06, 2009 6:24 am

Boas. Enfim ninguém reagio ao meu post antrior no tópico mas adiante. Uma coisa que acho estúpida seria Deus ser parcial ou seja ele assistir a presses e orações. Porque um Deus justo não diferência os seus "filhos" então não vale a pena estar a rezar! Como o meu pai diz:" Fiate na Virgem e não corras!" é só um dado importânte que queria sublilnhar sobre Deus. Outra ideia é que podiamos ser como as bactérias do nosso organismo e Deus seria o nosso "chefe" visto que trabalhamos em parte para ele, enfim só uma disserção de um agnostico sobre Deus. Razz

Abraços, Dire Idea

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Mensagem  Filipe de Albuquerque em Qui Set 10, 2009 6:01 am

SOBRE O MONISMO

A Ilusão fragmentaria da Pluralidade, artificio reprodutor do Primário, que se constitui "insubstancialmente" em imagens e inversões do mesmo, através de uma axiologia matemática do Tempo e do Espaço, na Consciência (relacional) que desperta pelo confronto da "coisa" com a diferença emergente (não de fundo) que de si se desprende, inequivocamente documenta, enquanto acto Comunicacional e na Causalidade explicita do seu acontecer, a mais pura e imediata revelação do mecanismo com que o Uno se dispõe e afirma.
... pois é nesta mesma causalidade, que se prova a sua indissociabilidade...e nela a UNIDADE Matricial da sua condição efectiva...

Lembrar que:

...necessariamente reconhecer o outro, é estarmos nós próprios...seja porque vê-lo, é já o sermos ! (só reconhecemos o que de alguma forma nos é próprio, naturalmente como diria Lapalice )

...e que portanto Deus é, enquanto Totalidade, na morte do seu ser para si, ainda assim, algo de constituído para a expressão do seu contrario, precisamente, o ser "Homem"...ou seja, ser parte, ser múltiplo, ser Consciência !

...eis pois o mistério da Trindade, segundo a minha perspectiva:

Totalidade= Universo = Pai
Parte=Homem=Filho
Devir=Consciência=Espírito Santo (Dialéctica)=(Superação do Confronto)
(também a meta e justificação do Darwinismo)

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Renato em Ter Nov 24, 2009 2:35 am

Filipe de Albuquerque escreveu:Para todos os efeitos e dada a sua incontornável importância, gostava de ouvir a opinião dos diversos membros do Fórum sobre esta matéria...

A terem que conceber uma ideia de Deus qual seria a vossa ?

Até breve ! Wink

FILIPE DE ALBUQUERQUE

Olá amigos,

Minha tentativa de contribuir aqui, será em torno de estudos sobre a História da Ciência.

Desde a antigüidade, do ponto de vista da lógica formal, Deus foi interpretado como "causa primária de todas coisas" desde Aristóteles a Kardec.

é interessante observar que o conceito de Deus muda na Revolução Científica do Século XVII. Deus sai dos bastidores da lógica formal de Tomás de Aquino para ser localizado na Natureza. Mas ainda aqui, há o princípio de que "é pelo efeito que se reconhece as causas". É pelo fruto que se reconhece a árvore (Jesus, não sei o versículo de cór).

Assim, Galileu irá dizer que Deus, contém os moldes matemáticos - relembrando Platão - do mundo físico, e que "se conhece a Deus a partir do estudo da sua Obra Magna: a Natureza.
Mas essa proposta não está só em Galileu, mas na maioria dos filósofos naturais do século XVII. A grande "novidade" - que não chega a ser uma novidade - é que Deus possui um corpo material - Èter - pelo qual ele se manifesta no mundo físico (newtonianismo).

E aí, aparece - agora sim - uma novidade: O Universo não é uno, porque ele é uma criação de Deus. Se ele é uma criação de Deus, não é o próprio Deus. Mas na visão panteísta, poder-se-à argumentar que Deus é "Espírito", e que a matéria é uma "rarefação" do Espírito de Deus, o que significa dizer, que tudo é uma emanação de Deus.

Aqui, entretanto, surge um grande problema, que é a existência do Espírito, e já que o flavius falou do Espiritualismo oriental, citando Krisna e Buda, entre outros, acho que não cabe de boa fé passar ao largo da questão do Espírito.
Assim, no Espiritualismo budista, só o Espírito é real. E os Espíritos são "o elemento inteligente da criação" (Allan Kardec). Não são emanação do próprio Deus, do contrário, não teríamos individualidade. E nós a temos não temos? Qual o conceito de livre-arbítrio?? Essa é uma questão interessante, porque, se somos emanação do próprio Deus, então obviamente que não temos livre-arbítrio. Ou então, de duas uma: o Espírito tem o livre arbítrio, mas o ser humano não o tem. Ou ainda poder-se-à acrescentar: nem o Espírito nem o ser humano possuem livre-arbítrio, porque todos são emanação de Deus. Esse, o grande problema do panteísmo. (espero resposta para ele).

Para uma conceituação "científica de Deus" (continuando)

Desde a mais alta antigüidade, os filósofos de todos os tempos preconizaram a existência de "elemento intermediário" entre Deus e o mundo, ou actualmente falando, entre Deus e o Universo.
Esse elo, é conhecido como água em Tales de Mileto; como pneuma na filosofia dos estóicos; e Paulo - que se atribuiu aí acima, a ele, a condição de um monista, irá dizer em (Atos: 17: 28) que "em Deus nos movemos e existimos", ou seja, que tudo o que existe está plasmado no fluido cósmico universal, ou matéria primitiva (que difere da matéria propriamente dita), que não é senão "a força nervosa do Todo-Sábio" (André Luiz) e que "nesse elemento primordial vibram e vivem constelações e sóis, seres e mundos" (Evolução em Dois Mundos, André Luiz). Esse elo entro Deus e o mundo, ainda aparece em Descartes como pneuma ou "sombra da glândula pineal"; em Leibniz, como "efeito das mônadas inteligentes" que seriam uma espécie de "átomos divinos", e que abriu espaço para a fundação das bases da Física Moderna. Aparece ainda em Platão como anima mundi, cujo conceito será retomado por Henry More no século XVII, com a designação de "Espírito da Natureza", para se transformar, em Isaac Newton, em "Espaço Absoluto", e no "éter" cujas pesquisas experimentais atingiram o seu apogeu com Lorentz e Maxwell.

De um ponto de vista científico, portanto, o que interessa - e também o que está ao alcance - não é o estudo da existência de Deus, mas sim nesse "corpo fluídico" que contém as matrizes não só das Leis da Natureza, mas também dos moldes matemáticos de Galileu.

bom, a minha tentativa de contribuir é essa.

Mas a questão colocada pelo flavius sobre "Deus na perspectiva existencialista" é muito oportuna e talvez até mais importante ( me parece que se trata de uma abordagem psicológica existencialista de Deus)

Vamos a ela em ocasião oportuna.

Um grande abraço a todos

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Filipe de Albuquerque em Qua Nov 25, 2009 6:34 am

Assim, no Espiritualismo budista, só o Espírito é real. E os Espíritos são "o elemento inteligente da criação" (Allan Kardec). Não são emanação do próprio Deus, do contrário, não teríamos individualidade. E nós a temos não temos? Qual o conceito de livre-arbítrio?? Essa é uma questão interessante, porque, se somos emanação do próprio Deus, então obviamente que não temos livre-arbítrio. Ou então, de duas uma: o Espírito tem o livre arbítrio, mas o ser humano não o tem. Ou ainda poder-se-à acrescentar: nem o Espírito nem o ser humano possuem livre-arbítrio, porque todos são emanação de Deus. Esse, o grande problema do panteísmo. (espero resposta para ele).

...Caro Renato gostei no geral da sua reflexão, ainda que deva acrescentar no meu ver uma pequena observação...

...nem mesmo Deus terá necessariamente a faculdade do livre arbítrio, pois que dessa forma se transcenderia enquanto Absoluto...o que não pode ser, claro está...

(e vale a pena reflectir nisto)
...Deus se é tudo, é pois também ele, o Futuro...

...agora nós, enquanto emanações de Deus, efectivamente experimentamos com muita convicção a ilusão persistente da Liberdade, isto precisamente porque enquanto partes circunstanciais da grande maquina, desconhecemos NECESSARIAMENTE a rota pré-determinada do Futuro, a mesma que está e estará, sempre constrita ao circulo fechado da Meta ORDEM que tudo abarca e em que inevitavelmente, como sombras de coisas, nos perdemos...

Um Abraço !

Atentamente>FILIPE DE ALBUQUERQUE

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Renato em Qua Nov 25, 2009 7:04 am

Filipe de Albuquerque escreveu:
Assim, no Espiritualismo budista, só o Espírito é real. E os Espíritos são "o elemento inteligente da criação" (Allan Kardec). Não são emanação do próprio Deus, do contrário, não teríamos individualidade. E nós a temos não temos? Qual o conceito de livre-arbítrio?? Essa é uma questão interessante, porque, se somos emanação do próprio Deus, então obviamente que não temos livre-arbítrio. Ou então, de duas uma: o Espírito tem o livre arbítrio, mas o ser humano não o tem. Ou ainda poder-se-à acrescentar: nem o Espírito nem o ser humano possuem livre-arbítrio, porque todos são emanação de Deus. Esse, o grande problema do panteísmo. (espero resposta para ele).

...Caro Renato gostei no geral da sua reflexão, ainda que deva acrescentar no meu ver, que nem mesmo Deus terá necessariamente a faculdade do livre arbítrio, pois que dessa forma se transcenderia enquanto Absoluto...o que não pode ser, claro está...

(e vale a pena reflectir nisto)
...Deus se é tudo, é pois também ele, o Futuro...

...agora nós, enquanto emanações de Deus, efectivamente experimentamos com muita convicção a ilusão persistente da Liberdade, isto precisamente porque enquanto partes circunstanciais da grande maquina, desconhecemos NECESSARIAMENTE a rota pré-determinada do Futuro, a mesma que está e estará, sempre constrita ao circulo fechado da Meta ORDEM que tudo abarca e em que inevitavelmente, como sombras de coisas, nos perdemos...

Um Abraço !

Atentamente>FILIPE DE ALBUQUERQUE

Essa questão do Livre-arbítrio é interessante. De facto, Deus não o poderia ter, já que, sendo Absoluto e Incriado, Perfeito, não poderia escolher entre o bem e o mal, entre o "ser" e o "não ser".

Quanto ao homem, deixo aqui um questionamento: nós temos ou não o livre-arbítrio?? Esse debate está sendo levado a cabo em outro fórum, e uns espiritualistas por lá, dizem que nós não temos o Livre-arbítrio pelo fato de Deus, que nos criou, traçou apenas um caminho que conduz até ele, de forma que, não temos o Livre-arbítrio, já que, necessariamente saímos de Deus e para ele retornaremos (Santo Agostinho).

Mas esse raciocínio é uma construção teórica - argumentei eu em outro fórum - baseada na lógica metafísica, ou seja, é uma questão que não deixa escapatória: leva ao panteísmo.


Acho que uma tentiva que houve de sobrepujar essa lógica foi a criação do diabo Very Happy E é impressionante como as pessoas ainda acreditam nele, porque a sua existência é completamente impossível. Aceitar o Diabo seria negar a Unicidade de Deus.

E agora o questionamento espinhoso: aceitar a nós como seres livres e possuídores de livre-arbítrio seria negar Deus??

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

Mensagem  Peregrino em Sab Jan 02, 2010 4:56 pm

Parabéns colegas, pelas boas colocações, razoáveis e imparciais, visto que falar de religião, mesmo sob o olhar filosófico, não raro torna-se esteio para opiniões tendenciosas ou parciais.

Eu vejo a religiosidade humana, independente de sua denominação ou doutrina, como resposta à fragilidade física humana em choque à capacidade colossal da mente humana. Essa crise existencial, que não é encontrada aparentemente em nenhum outro lugar no reino animal, impele o ser humano a preencher esse 'vazio' angustiante, seja pela religião, seja pela ciência.

Deus torna-se assim uma figura maravilhosa, independente de como Ele seja, ou se realmente é, pois assim todos os anseios ou necessidades que o humano almeja são garantidas por sua divindade, através de uma troca (ofertas, preces, louvores, sacrifícios, rituais, dedicações,etc)

Isso me lembra o judaísmo mosaico, que existia o Sacrifício de Participação em Comum, onde o hebreu trazia sua oferta animal ou vegetal até o altar, e Adonai simbolicamente também ficava presente durante a oferta. Enquanto o sacrifício era aspergido e queimado, a fumaça sacrificial ascendia até os céus, e Adonai 'cheirava', apaziguando-o permitindo que Ele se aproximasse e possibilitasse uma comunhão.

Similaridades podem-ser encontradas em inúmeras culturas e crenças, mesmo em religiões tribais, indígenas, ou remotamente antigas, como dos humanos primitivos.

dire Z'one escreveu:Boas. Enfim ninguém reagio ao meu post antrior no tópico mas adiante. Uma coisa que acho estúpida seria Deus ser parcial ou seja ele assistir a presses e orações. Porque um Deus justo não diferência os seus "filhos" então não vale a pena estar a rezar!

Dire, no caso do Deus cristão, eu entendo que o objetivo de Deus não seja 'atender' a cada pedido ou solicitação de uns e desconsiderar o de outros. Após algumas pesquisas do cristianismo, e do Deus de amor pregado por Jesus de Nazaré, encontro uma similaridade enorme da relação de Deus com o ser humano com o de uma pai de família e seu filho. Um pai sensato e que não quer ver seu filho mimado não irá atender a maior parte dos pedidos do seu filho, ainda mais se ele tem tudo o que já precisa. Mas mesmo assim um pai amoroso irá escutar o seu filho sempre que ele lhe dirigir a palavra, mesmo se for para pedir uma coisa insensata. No caso, Deus escuta as preces, com o objetivo de saber o que há no seu íntimo, suas reais intenções, e o acompanha em sua jornada de se tornar uma pessoa melhor, intervindo quando julgar necessário.

Com base no Deus cristão, Deus criou a humanidade e deu-lhe a vida terrestre com todos os prazeres que a vida proporciona, incluindo a livre escolha, podendo decidir o que fazer e como agir, sabendo que na vida há limites que devem ser conhecidos e respeitados, e um equilíbrio que deve ser alcançado. Este equilíbrio é a jornada final cristã onde o humano estará em comunhão com Deus, que lhe criou (claro que isso é apenas uma análise independente utilizando como base o raciocínio bíblico-cristão).

É claro que a religião, até pelo seu vasto histórico de divergências não pode ser simplista, sem levar em conta as inúmeras divergências e paradoxos existenciais, como de todas as 'lacunas' que existem nas linhas de raciocínios das diversas culturas religiosas.

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Re: Teísmo, Religião e Conceito de Deus - Tangências

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